Não conheci meu avô materno, mas, pelo que minha mãe contava, era um sábio. Dentre outras razões, porque, sempre que começava uma partida de futebol, dizia que não sabia o motivo de aquele monte de homens passar tanto tempo correndo atrás de uma bola. E repetia sempre a mesma pergunta: “Por que é que não acabam de vez com essa briga e dão uma bola pra cada um?”. Claro que era uma gracinha, uma piadinha e, claro também, que vovô tinha lá suas inquietudes em relação à vovó, mas nunca soube o que era não tê-la aos domingos e às quartas-feiras, afinal de contas, vovó não era chegada a futebol e ria quando ele fazia piadas relacionadas ao esporte mais popular do país. Vovó era uma sortuda: tinha em casa um marido que não dava a menor bola pra time nenhum.
Ambos eram casos excepcionais. A regra é clara: seja lá qual for o time do sujeito, todo domingo tem um jogo ao qual ele vai querer assistir. E toda quarta também. Se não for o time dele jogando, será um rival, algum outro que pode mudar toda a tabela do campeonato, ou qualquer coisa assim. O fato é que dois dias por semana, se você, minha amiga, não é ligada, nem um pouquinho, mas nadinha mesmo, ao mundo futebolístico, esqueça. Você perdeu seu parceiro para o universo dos campos, bolas, juízes, faltas, cartões, impedimentos, pênaltis, gols, vitórias, derrotas e... evidentemente, mesas-redondas. Ou você achou que perderia seu benzinho para as partidas só duas vezes por semana, por 90 minutinhos de cada vez? Quer moleza, santa? Senta no pudim ou entra da banheira e conforme-se com o impedimento.
A dinâmica do futebol, apesar de complexa para quem resolveu se aventurar nesse ambiente só depois de velha, não parece tão complicada assim. Mas tudo que envolve o futebol exige esforço supremo e QI dos mais elevados. Entender o que leva alguém a assistir a TODAS, repito, a TODAS as mesas-redondas após uma partida é difícil para mortais como nós.
Avaliemos: o jogo já acabou, se o juiz errou, isso não vai mudar, o vencedor já é vitorioso, o perdedor não terá o resultado revertido. Mas o seu querido quer saber o que dizem os comentaristas. E sabe pra quê? Para discordar, inutilmente, de todos eles. Fica em frente à TV, resmungando, reclamando e questionando, como se, do outro lado, aquele monte de mar-manjos metidos a entendidos ouvissem suas opiniões. Quando se cansa, troca de canal e repete tudo. É um ritual.
No dia seguinte, a caminho do trabalho, tem mais: o rádio do carro. É um sistema que se retroalimenta. Do lado de lá, os comentaristas falando exaustivamente sobre aquelas tais partidas, que, não custa repetir, já aconteceram e não vão ter seus resultados modificados. Do lado de cá, o meu, o seu, os nossos queridos ouvindo tudo isso, esperando loucamente a hora em que serão chamados ao debate para discutir todas aquelas coisas que vão mudar nossas vidas para sempre.
Ao editor:
Mas um dia vão pedir sua opinião, não é, meu amor? Até o treinador vai querer saber o que você pensa antes de escalar o time ou fazer uma substituição!




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